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“O cérebro vive de estímulos.”

Data do post: 14/09/2018

O neurocirurgião Paulo Niemeyer Filho, 58 anos, considerado o número um da especialidade no Brasil, confirma que “o exercício cerebral é fundamental para o envelhecimento saudável” e rechaça a crença de que o mundo moderno e suas tecnologias atulham nossos cérebros de informações. Carioca, casado, pai de quatro filhos, o médico vem de uma linhagem de excelências. Seu pai, já falecido, o também neurocirurgião de quem herdou o nome, é reconhecido como um dos maiores da especialidade e não por acaso vai batizar o Hospital Estadual do Cérebro Paulo Niemeyer, no Rio de Janeiro, que deverá começar a funcionar ainda este ano para atender à população carente. Ele também é sobrinho de Oscar Niemeyer, o Arquiteto do Século, título que dispensa maiores apresentações.

Além de ser o médico que assina a fantástica recuperação de pessoas famosas como o músico Herbert Vianna, a atriz Malu Mader, o ator Paulo José e, mais recentemente, o cineasta Sílvio Tendler, Paulo Niemeyer Filho também opera de graça, na Santa Casa de Misericórdia, muitos anônimos que não podem arcar com os custos de enfermidades neurológicas. Sobre o esquecimento que acomete as pessoas a partir de determinada idade, o neurocirurgião dá uma dica que pode ser resumida assim: preocupe-se menos em gravar nomes pouco importantes na memória e sim em “não esquecer as coisas boas da vida”.

O bom funcionamento do cérebro (do ponto de vista clínico) contribui de maneira efetiva para que a pessoa se sinta bem?

O bom funcionamento do cérebro certamente é um pré-requisito para o bem-estar, mas não é suficiente. Quando um neurologista fala em bom funcionamento do cérebro está pensando num bom equilíbrio de seus neurotransmissores, evitando a depressão, na agilidade de seus circuitos, assegurando boa memória, rapidez de raciocínio etc. Já o psiquiatra pensa num bom equilíbrio psíquico, na ausência de conflitos significativos, na satisfação com seu dia a dia. É preciso as duas coisas, uma harmonia do físico e da alma para que a pessoa se sinta bem.

E o caminho inverso é possível: ou seja, a paz e a sensação de felicidade ajudam o cérebro a ser saudável?

Uma coisa puxa a outra. A sensação de paz e felicidade acompanha-se normalmente de vida ativa, novas experiências, riscos profissionais, enfim, uma série de novos estímulos decorrentes da vida que flui. É disso que o cérebro vive, de estímulos permanentes para seus circuitos, que acabam por produzir as sensações prazerosas que nos levam a repeti-los.

A longevidade tem associação direta com o desejo de viver? Então, pessoas que não têm motivação repassariam essa “orientação” da mente para o corpo. A depressão, então, seria um fator que ajudaria a diminuir a expectativa de vida, já que a pessoa deprimida tende a ver a vida como um fardo?

A pessoa que quer viver é aquela que está de bem com a vida, que se cuida, tem autoestima elevada, é otimista e enxerga as coisas boas que a cercam. As pessoas que estão de bem com a vida, quando operadas, confiam que tudo vai dar certo e se recuperam rapidamente. Os deprimidos tendem a não se cuidar e são uma preocupação para os cirurgiões. São pacientes que costumam ter um pós-operatório arrastado, com menor tolerância à dor, que demoram a sair do leito, transformam pequenas dificuldades em obstáculos e acabam sujeitos a maiores complicações.

O neurocirugião é um especialista em desarmar bombas, não é? A evolução da medicina fez grande diferença nessa área?

O tratamento dos aneurismas cerebrais vem evoluindo rapidamente. Até uns poucos anos atrás, esses aneurismas só eram diagnosticados quando rompiam provocando hemorragias, muitas vezes fatais. A sensação de desarmar a bomba é real, e mais importante ainda quando é possivel fazê-lo antes do primeiro sangramento. Com a eficiência dos exames de imagens atuais, pelo menos metade dos aneurismas são diagnosticados e operados antes do desastre. A cirurgia é mais fácil e mais segura quando é feita sem urgência, num aneurisma que nunca se rompeu. Apesar de todo avanço tecnológico que aperfeiçoou a técnica cirúrgica e criou alternativas, como o tratamento endovascular, nada foi mais importante para melhorar os resultados que a possibilidade de diagnóstico precoce dos aneurismas, antes da hemorragia.

Cuidar bem da cabeça, para um neurocirurgião, se traduz em que iniciativas?

Cuidar da cabeça significa, antes de tudo, cuidar da saúde em geral. Várias doenças, como diabetes e hipertensão arterial, podem ter efeitos adversos no cérebro. O check-up neurológico vai ganhar muita força quando tivermos exames que diagnostiquem com antecedência a doença de Alzheimer, o que não deve demorar. Por enquanto, este check-up deve ser feito para afastar a presença de aneurisma cerebral, principalmente em famílias com história de aneurisma.

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